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Como Fazer Quadrinhos

6 Elementos básicos para criar uma História em Quadrinhos

De um modo geral, as histórias em quadrinho costumam acompanhar a vida das pessoas desde a infância. De modo que suas características básicas estão de algum modo arraigadas na nossa mente. Ainda assim, muita gente simplesmente “trava” diante de uma possibilidade de para fazer quadrinhos, seja numa brincadeira criativa sem compromisso ou  para realizar alguma atividade criativa na escola, entre outras possibilidades. Seja um cartum de quadro único, uma tira ou uma história longa.

Não se preocupe tanto com isso a ponto de ficar sem ação: você verá que os princípios básicos para a produção de uma HQ são simples (claro que fazer isso com qualidade profissional e sair por aí a ganhar dinheiro com suas histórias em quadrinhos vai exigir esforço, tempo e dedicação, mas isso é uma outra história).

Resolvi então listar estes elementos básicos, que estão presentes de uma forma ou de outra em qualquer gênero de HQ, seja um infantil, adulta, graphic novel, mangá… Num esquema profissional, o trabalho de pensar cada detalhe pode ser dividido por uma equipe (desenhista, roteirista, letrista…), mas a ideia aqui é apresentar para que qualquer pessoa, criança, jovem, ou adulto possa arriscar seus passos nos quadrinhos por meio destas dicas fundamentais.

Vamos lá?

As HQs são conhecidas exatamente por esta marcante característica básica: este conjunto de linhas que delimitam o espaço de cada cena e constituem o quadrinho, esta moldura mais conhecida como requadro entre os profissionais da área.

Em algumas histórias, tais linhas podem ganhar formatos diferentes, chegam a ser circulares, trêmulas… Um formato mais anguloso ajuda na narrativa visual e deixa a leitura mais dinâmica, por exemplo. Até existem casos nas quais as linhas são existem efetivamente, o autor deixa ao leitor a tarefa de imaginá-las. É uma opção estética para a obra, implica em outros questionamentos, mas como estou a tratar do básico, então fiquemos com o requadro.

CALHA

Talvez nunca tenha parado pra pensar, mas em geral existe um vão entre um quadrinho e outro. É o que chamamos de calha. Ela pode ajudar a delimitar o tempo: mais larga, indica mais tempo entre um quadro e outro; se é mais curta indica uma ação mais rápida e contínua

BALÃO E RECORDATÓRIO

Tão amplamente conhecido como o requadro são os balões, esta figura que simboliza o ato da fala dos personagens, abrigando o texto da conversa. Os balões também podem ser desenhado de forma diferente, acumulando funções na HQ: linhas mais quadradas podem significa voz eletrônica, mais rabiscadas indicam de grito ou voz alta, aquelas que lembram nuvenzinhas constituem balões de pensamento e por aí vai…

Tipos de Balão - SaposVoadores.net

Note que o balão tem um “rabicho”, de forma a apontar para um personagem para indicar precisamente ao leitor quem está falando, ou pensando.

Já o recordatório é um painel sem rabicho, usado normalmente pelo narrador para tratar de algo não visível no quadrinho. Em algumas histórias também é usado para apresentar pensamentos dos personagens (se o balão “nuvenzinha” representar uma quebra na harmonia da arte, por exemplo, como em HQs mais adultas).

Um parênteses: O uso de representação da fala é tão marcante para os quadrinhos que sua utilização pelo cartunista norte-americano Richard Outcault na série At the Circus in Hogan’s Alley, criada em 1895, é considedo como marco da criação dos quadrinhos. Embora não usasse balões, o personagem principal, Yellow Kid, o Garoto Amarelo, apresentava suas falas por meio de texto inserido em sua vestimenta. Claro que representação de histórias por meio de desenhos existem desde o tempo das cavernas – e mesmo aqui no Brasil tivemos um dos precursores das HQs, o italiano Angelo Agostini, que lançou seu Nhô Quim em 1869 na imprensa nacional – mas isso é conversa pra outra hora…

Assim como o balão indica o som da fala, a onomatopeia é uma representação de um som ambiente, que for importante para o desenrolar da história.

ONOMATOPEIA

Como não tem o rabicho, é desenhada bem próxima ao emissor do som. Assim, “TOC, TOC” indica o som de duas batidas na madeira, “CABRUM” uma explosão, “PLOFT” uma coisa caindo no chão e por aí vai. Normalmente vem acompanhada de algum incremento gráfico às letras, como nos exemplos acima.

DESENHO/ IMAGEM

É a desculpa clássica pra alguém se recusar a tentar fazer uma história em quadrinhos: “Não sei desenhar”. O que, em geral, não é bem verdade: estamos acostumados a rabiscar desde a infância embora a maioria pare de evoluir seu desenho depois de alguns anos. Mas ainda assim sabem tentar reproduzir o que vêem ou imaginam graficamente, nem que seja por esquemas e “homens palitinho”. Volta e meia, quando alguém não consegue se expressar com palavras pedem: “Desenha aí!”, não é verdade? Sem contar, que é possível produzir quadrinhos usando fotos ao invés de desenhos, ou mesmo colagens…
As Cobras, por Luís Fernando Veríssimo
Claro que, se o objetivo é uma qualidade profissional,  você terá que treinar bastante, seja sozinho ou por meio de cursos específicos de quadrinhos. Mas aqui estou me atendo ao básico, a existência do desenho/imagem é fundamental, mas a sua qualidade estética é discutível (não é por que o desenho não parece uma foto que a HQ é ruim, vide o escritor Luís Fernando Veríssimo e sua genial tira das Cobras). Essa suposta qualidade do traço importa menos que o item a seguir, por exemplo.
NARRATIVA VISUAL
Você, como leitor de quadrinhos, usufrui disso, talvez sem saber. Há certas regras a serem seguidos na escrita, certo? Para que o processo de leitura de uma HQ aconteça naturalmente, também existem padrões a seguir na construção da narrativa visual, ou seja a que é possibilitada por meio do desenho.
 
É básico, por exemplo: nós ocidentais escrevemos da esquerda para a direita, de cima para baixo. A diagramação dos quadrinhos e da arte nele contidos devem levar isso em conta, do contrário dá um nó na cabeça do leitor, que não sabe bem a ordem de “leitura” tanto do texto quanto das imagens. Em geral as pessoas sabem posicionar bem os quadrinhos, mas se esquecem do conteúdo de cada um. Por exemplo, se há dois personagens em cena. Em geral, quem fala primeiro deve ficar mais à esquerda, assim como seu balão. Se duas pessoas estão conversando, tente posicioná-las como seria na vida real, é só observar: elas procuram se olhar na maior parte do tempo. E se alguém aponta pra uma direção, a outra pessoa da cena acaba por olhar pra lá e não mais pro interlocutor. E por aí vai.

Há muitas outras situações que podem ser melhor resolvidas no desenho por meio de um bom estudo de narrativa visual. Claro que isso demanda certa “cultura visual”, aprender a observar estes pequenos detalhes, realizar estudo específico.  Mas se você conseguir ao menos cumprir o básico tá ótimo: a arte deve seguir o sentido tradicional de leitura. Se não, fica esquisito, como é, por exemplo, ler um mangá com texto traduzido, mas com a arte mantendo o padrão oriental (que não só lê da direita para a esquerda, mas escreve em vertical de cima para baixo, não horizontal como nós), como comentei neste artigo na Rede RPG. Me agrada mais os mangás com arte invertida para leitura da esquerda para a direita (como num espelho): cria algumas situações estranhas, com personagens destros virando canhotos, mas é um preço a se pagar por uma melhor narrativa visual.

E é isso. Tendo em vista estes itens que tratei acima, só pensar numa história que mereça ser contada e mãos à obra. Comece com ideias de um quadrinho só e vá aumentando… Deixa aqui um comentário com sua experiência depois.

E então? Está preparado para se arriscar a criar suas próprias histórias em quadrinhos?

Não deixe de visitar este outro post do blog, no qual dou dicas básicas também para criação roteiro.

Confira também:

– 5 livros básicos para aprender a fazer quadrinhos

– O que aprendi sobre quadrinhos (e a vida) com Lourenço Mutarelli (com dicas para sua produção de HQs e uma lição de vida)

Como obter dinheiro para produzir seus quadrinhos

Como fazer HQs e tirinhas utilizando softwares gratuitos

– Uma série de quadrinhos experimentais produzidos a partir de fotos: #EuVejoHQs

99 respostas em “6 Elementos básicos para criar uma História em Quadrinhos”

Gostei da aula, sou um aprendiz eterno das coisas que me ajudam a progredir e ser melhor! obrigada pela oportunidade de poder me comunicar com os senhores!

Oi Maria Lucia.
Que bom que o post te ajudou.
Sempre que quiser postar alguma pergunta ou comentário relacionado, estamos por aqui às ordens!

bom eu gostei muito desse site pq nos mostra como fazer certo um HQ, gosto muito de aprender! principalmente quando o assunto é arte!!!!!

Legal Adriel, conte sempre com este espaço aqui pra tratar de outras informações sobre como fazer quadrinhos. E tendo alguma dúvida específica basta postar aqui, tá?

Gostei mito dessas suas dicas de como elaborar quadrinho.. pois bem obrigado… Estou fazendo o que posso para absorver técnicas de desnhos e essa arte de fazer quadrinho ira me ajudar ater um maior conhecimento das áreas de aplicação da arte de Desenhar…
OBRIGADO…

Luciane, se você puder dizer exatamente o quê precisa talvez eu possa ajudar. Você precisa de uma sugestão para quê? E o quê exatamente: sugestão de nome de algum desenho animado?

Adorei a matéria e ja estou pensando em fazer uma história em quadrinho para meu namorado pois ele adora hqs. Bom nao sou boa no desenho mas me encorajou a desenhar kkk bjsss

Vllw,muito bom esse blog,gostei muito msm,SHOW…Agora sera q nn teria como vc falar um pouco mais sobre NARRATIVA VISUAL nn brow,agradeço:)

Oi Lu, você poderia explicar melhor o que precisa pra gente poder ajudar?
Qual foi exatamente o trabalho encomendado?

Desde pequeno gosto de desenhar e desenho bem, sou fã do famoso manga Naruto, q virou anime tmb, sonho em um dia me tornar conhecido pelas minhas futuras obras, obrigado pela ajuda com as histórias em quadrinhos, já comecei a desenhar!

Muito obrigado, professora.
Se quiser pedir ou dar alguma dica pra gente é só deixar outro comentário por aqui.
Abraço!

estou trabalhando em uma historia em quadrinhos de um grupo de jogadores de futebol. muito bacana esse post me ajudou a aperfeiçoar a minha historia.

Oi Cristian. Obrigado pela visita e sua observação. Sinta-se à vontade para indicar assuntos que deveriam ser aprofundados, pra gente é importante saber o que os leitores realmente procuram.

Belíssimo trabalho, parabéns, agora não tenho mais desculpa pra fugir do desenho, Preciso incluir em uma de minhas oficinas a história do que foi visto e a ideia dos quadrinhos foi a primeira a surgir, mas ai surgiu o problema “desenho” e agira vcs resolveram o meu “problema”. Obrigado

Me tirou muitas dúvidas, ótimo post, obrigado! Mas me resta uma ainda: existe algum material em específico para começar a fazer os desenhos (papel, lápis, caneta, etc)?

Oi Fernando. Me parece que o melhor caminho é você experimente diversos materiais. Visite uma papelaria ou, se possível, uma loja de materiais artísticos e comece de acordo com seu orçamento. Porque cada pessoa se adapta melhor a um tipo de material, então me parece que o básico é o que você tiver à mão. Independente do tipo de lápis (ou lapiseira), borracha, caneta nanquim (ou pena+tinta) e papel, ou um computador com mesa digital, vale mais a sua disposição em aprender e colocar no papel (ou na tela) os seus exercícios práticos.

Boa tarde Equipe tudo bem com vcs?

Eu pesquisando pela internete e encontrei vcs, e estou amando de paixão por que é a minha Vida fazer HQ. Amo desenhar, criar personagens, fazer roteiros, arte final amo de paixão essa vida do mundo das HQ. Eu poderia ter contatos direto com a equipe?
Bjinhussssssssss e Sucessosssssss!!
Gigi

Muito legal seu trabalho, e lucidou muitas duvidas em como apresentar aos meus alunos a estruturação dos HQ’s .
Sou Prof. do 3º ano do ensino fundamental, e sua publicação é direta e de fácil compreensão. Me deu ótimas idéias em como expor aos na aula as devidas explicações sobre o tema.
Parabéns!

Olá, muito obrigado por sua mensagem. É muito gratificante pra gente saber que o conteúdo aqui está alcançando também pessoas multiplicadoras de conhecimento como você, professor!
Sinta-se também à vontade para sugerir assuntos ou tirar dúvidas. Valeu!

Poxa, Obrigada!!!
Excelente o post! A um bom tempo procurava dicas assim,, um conteúdo fácil de ser explicado, mas que quase nunca é listado todo de uma vez para contribuir com o aprendizado dos amadores na área. Muito obrigada foi incrível e esclareceu muito.

Continuem assim, o blog é show!!

God bless sempre ♡

Olá!
Estou com uma dúvida.
Antes de começar o diálogo entre os personagens, se houver uma fala do narrador(indicando o local e a circunstância ,onde eu coloco?
Coloco no começo da história?

Oi Alberto. Não há uma regra, depende da situação e do seu estilo. Entendo a narração como um complemento, uma vez que o desenho tem que dar boas pistas da informação.
Para retratar uma grande cidade como São Paulo, por exemplo, às vezes é possível começar mostrando um ponto turístico (de modo que a narração com o nome da cidade fica secundário ou até desnecessário, dependendo do seu público). Mas às vezes faz parte da graça mostrar uma parte da cidade que não parecer São Paulo, de modo que a narração pode provocar surpresa.
Pense no efeito que você quer dar pra posicionar a narração de modo adequado.

Oi Eduardo.
Espero poder ajudar, mas seu pedido é um tanto genérico.
Esse tipo de história depende uma boa narrativa visual. Se você está sem ideias, talvez precise treinar algumas cenas descompromissadas antes de partir pra ua história longa. Comece pequeno, uma charge sem falas, uma tira, uma página até avançar pra história maior.
Ideias pra conteúdo, bom, você pode tirar de notícias diárias, por exemplo (a realidade é a melhor fonte pra histórias e muitas vezes mais curiosa que a ficção). Se puder especificar melhor podemos direcionar melhor. Obrigado pela visita e comentário!

Gostei muito das dicas, tirou algumas duvidas q eu tinha, estou fazendo um hq bem comprido, tipo umas 200 folhas e agora já tenho a base 😀

Boas ideias estão por toda parte. O noticiário cotidiano é ótimo pra isso. O que costuma ser mais complexo é conseguir estruturar a boa ideia numa história bacana. Mas isso, só vem com muito empenho, estudo e prática

Exelente conteúdo, parabéns aos idealizadores.
só deem uma olhada na escrita depois,pois tem alguns erros pouco notório mas que pode atrapalhar na interpretação.

Olá, adorei as dicas e com base em seu conteúdo montei um texto informativo para meus alunos do 3º ano que vão começar a estudar sobre histórias em quadrinhos após o retorno das férias. Gostei muito da linguagem que para eles facilitará o entendimento.

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