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O que aprendi sobre quadrinhos (e a vida) com Lourenço Mutarelli



Lourenço Mutarelli é um artista que consegue enveredar por diversas áreas, como poucos: iniciou sua carreira autoral como quadrinista e depois foi para a literatura. Depois, texto teatral. Com suas obras sendo adaptadas, arriscou-se também como ator para cinema e teatro.

Atualmente transita pelo mundo das histórias em quadrinhos, literatura, teatro e cinema, mantendo uma produção consistente, texto primoroso, repletos de ironia e peculiaridades da existência humana. E sua arte de altíssimo nível vai por esta mesma linha em suas HQs e ilustrações.

Além de ler sua obra em quadrinhos e literatura, tive o privilégio de ter sido aluno dele em workshop de roteiro e, mais recentemente, atuei na produção executiva de eventos com sua participação, pelo Itaú Cultural. Resolvi então organizar algumas das coisas que aprendi com ele, aproveitando o relançamento de sua trilogia policial em quatro partes (é isso mesmo, não leu errado) com as história em quadrinhos do detetive Diomedes, desta vez encadernadas num único volume, batizado de Diomedes – A Trilogia do Acidente pela Cia. das Letras.

Vamos lá?

UM QUADRINHO POR DIA

Pra quem não está familiarizado com o modo de fazer quadrinhos, uma noção de tempo: um desenhista profissional costuma precisar de pelo menos um dia de trabalho para produzir a arte a lápis com boa qualidade (se mais complexa a arte, mais tempo). E tem ainda o tempo de produção de roteiro, que vem antes, mais a arte final sobre o lápis, que vem depois.

Imagine que cada álbum da trilogia de Diomedes passavam de 100 páginas e tinha que ficar pronto em um ano. E que ele precisava intercalar este com outros trabalhos. E existem aqueles dias difíceis, sem inspiração, ou mesmo com imprevistos que ocupam a maior parte do tempo, como uma gripe.

O que fez Mutarelli? Estabeleceu consigo mesmo a meta de desenhar ao menos 1 quadrinho por dia. Quadrinho, não página: afinal, quem não consegue fazer nem um quadrinho por dia vai conseguir fazer uma página com vários deles? Parece pouco? Basta pensar que ele não tinha folga: todo dia, independente o que acontecesse nele, tinha que desenhar ao menos este quadrinho. Isso o manteve focado, ajudou a cumprir os prazos e resultou numa belíssima obra.

CONTE A HISTÓRIA DA PEDRA



O primeiro exercício que ele passou no workshop: conte uma história da pedra. História? Que história? Ora, pedra existe por todo lugar, todo mundo tem alguma história com pedra (até o poeta, que a encontrou no caminho). Da mesma forma que pode ser fácil pensar em algo a se contar envolvendo uma pedra, é também fácil o leitor acreditar que tal história existiu.

Use elementos familiares em suas histórias. Se forem familiares a você, poderá imprimir um caráter mais pessoal, que soará mais verdadeiro. Sendo familiares às situações dos personagens vai também provocar um sentimento maior de identificação. Por exemplo, incluir gírias policiais na fala de um sujeito que é um homem da lei vai ajudar o leitor a acreditar que o personagem é mesmo um profissional da área. Mas se ele falar o tempo todo como um professor universitário de literatura vai soar falso.
Se não sabe como é, pesquise, faça a lição de casa. E, se for o contrário, se pensar que não dá pra contar novas histórias sobre pedra, lembre-se que todo mundo tinha uma história com pedra antes de Drummond, mas ele conseguiu fazer este que é um dos grandes poemas nacionais.

O detetive Diomedes, arte de Mutarelli

DISCURSO E TRAÇO PRÓPRIOS

Desenho irregular, sujo, histórias escatológicas, depressivas, pesadas demais. Mutarelli teve muita dificuldade para encontrar espaço para suas HQs. As poucas editoras que publicavam material nacional até reconheciam que era um trabalho relevante, mas não ia de acordo com a política editorial da casa.

Não se intimidou: publicou em fanzines para colocar pra fora sua arte (e nos anos 80 não havia tanta facilidade com produção gráfica e divulgação como se tem hoje) e foi se virando pra ganhar dinheiro, como o emprego que teve como intercalador, uma espécie de desenhista secundário, para produção de animações nos estúdios de Mauricio de Sousa, feitas à mão na época. Foi aprimorando seu trabalho ao ouvir os “nãos”, mas não abriu mão do que queria dizer. Se tivesse se rendido a produzir o que o mercado queria, talvez nunca tivesse uma produção artística relevante. Deste modo, quando surgiu a oportunidade de publicar suas HQs como graphic novel e álbuns estava pronto para aproveitá-la, com qualidade tanto no traço quanto no discurso.

Ainda assim, se queixa de ter visto muita gente “torcendo contra” dentro do mercado dos quadrinhos. Talvez por conta disso tenha se espantado demais com a ótima acolhida que teve no mundo literário brasileiro, em especial pela nova geração. Com uma outra vantagem: com a literatura, se livrava da maior parte do trabalho braçal, necessário para a produção de uma arte de qualidade. Por conta disso, ficou anos se dedicando apenas a texto no início do século (mas para nossa sorte, falou mais alto sua necessidade de também desenhar e o mercado atual para HQs junto a tradicionais editoras de livros). O espaço no mundo literário lhe rendeu outros frutos: acesso ao teatro e cinema. Pôde não apenas escrever e ter suas obras adaptadas, mas também expressou sua veia artística por meio da atuação, em pequenos papéis até agora.

GRATIDÃO E HUMILDADE

Com o público de seu trabalho, tem uma relação de eterna gratidão. Tem total consciência que sem estes fãs não teria seu sustento e procura atender a todos, sempre que possível. Educadamente evita a posição de avaliar trabalhos alheios: “Quem sou eu pra avaliar o trabalho de alguém?”, é a frase que costuma dizer. Como já teve muito “nãos” na vida e não é editor, fica com receio de podar a criatividade.

Quando fala em público, costuma ainda pedir desculpas antecipadas se sua memória não permitir de se lembrar de alguém, sejam rostos ou nomes (também, pudera: já é uma figura pública com milhares de fãs).

A ARTE SALVA VIDAS

“Os Quadrinhos salvaram minha vida” – Mutarelli repete isso sempre que tem a oportunidade. Com uma história pessoal complicada, chegou a ter crises de pânico que o impediam de sair de casa. Mas graças ao apoio da família, à possibilidade de transformar sua arte em trabalho e renda e à sua força de vontade, pôde virar completamente a situação, a ponto de ter se tornado uma referência artística tanto para quadrinistas, quanto para escritores e criativos de outras áreas de expressão, como cinema e teatro.

Arte-autógrafo que ele fez no meu exemplar da HQ Transubstanciação (esse é meu, nem adianta!)

E você, também aprendeu com o exemplo do Mutarelli?

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Lourenço Mutarelli tem site, visite!

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